"O Brasil é um parceiro estratégico para nós"

7/Nov/2016
Brasil-Alemanha Ampliar imagem (© Colourbox.de)

* Entrevista do Dr. Georg Witschel, Embaixador da República Federal da Alemanha no Brasil, no Jornal Zero Hora, publicada no dia 07.11.16 que pode ser lida também através do link  http://t1p.de/5zzf

Ao apresentar suas credenciais ao presidente Michel Temer, em setembro, o embaixador da Alemanha, Georg Witschel, entregou ao chefe do Executivo brasileiro uma mensagem na qual seu governo manifestava interesse em convidá-lo a visitar Berlim. Até o momento, não há previsão de data, mas a questão é prioritária para as duas chancelarias. Com um histórico de relações bilaterais que remonta ao século 19, Brasil e Alemanha são parceiros em áreas que vão da indústria química à energia nuclear e do intercâmbio acadêmico à música.

Com uma folha de serviço que inclui postos em Israel, Eslovênia, Nações Unidas e Indonésia, Witschel é autor de obras sobre direito internacional, desarmamento e terrorismo. Em passagem por Porto Alegre na quinta-feira, o embaixador concedeu entrevista a Zero Hora. A seguir, uma síntese:

O governo alemão está em processo de escolha de uma cidade sede no Brasil para um futuro centro de estudos europeus e alemães. Qual é o estágio atual dessa avaliação?
Sim. Em primeiro lugar, falamos de um centro que não será o primeiro apenas no Brasil, e sim em toda América Latina. É algo grande e novo. É um centro para o qual receberemos 250 mil euros por cinco anos do orçamento federal da Alemanha, de fato do Ministério das Relações Exteriores. Universidades de todo o Brasil tiveram oportunidade de apresentar propostas (para se habilitar a sediar o centro). Ao final do processo de avaliação, ainda preliminar, restaram duas proposições: uma de duas universidades do Rio de Janeiro, PUC e Uerj, e outra daqui de Porto Alegre, feita em conjunto pela UFRGS e pela PUCRS. Esses são os dois competidores finais. Para os demais, o processo está concluído. A disputa é equilibrada. Em setembro, uma equipe do Deutscher Akademischer Austauschdienst (Daad, Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) esteve no Brasil para avaliar as propostas dos dois competidores. Estiveram primeiro no Rio, e depois aqui em Porto Alegre. Eles apresentarão seu relatório ao Daad, e a questão deve ser decidida até o final deste ano pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Daad. A opção pode ser por Porto Alegre ou pelo Rio.

Quais são as chances de cada uma?
Não sou capaz de fazer uma previsão, apesar dos esforços de nosso cônsul-geral em Porto Alegre, que convidou a equipe e lhe ofereceu um bom churrasco com boa caipirinha. (Risos.) Eles não deram nenhuma indicação sobre qual das cidades será indicada. Mas, no mínimo, há 50% de chances por Porto Alegre. Sejamos otimistas.

Qual é o estado das relações econômicas entre Brasil e Alemanha?

Primeiramente, seja com antigo governo, novo governo ou próximo governo, o Brasil é um parceiro estratégico para nós, além de um velho amigo. Isso significa que trabalhamos com todos os governos brasileiros democraticamente eleitos ou estabelecidos por meio de processos constitucionais. Isso resulta numa ampla gama de atividades comuns. Esperamos ter uma segunda rodada de consultas entre nossos governos no início de 2017. O Brasil é um parceiro estratégico, esteja a economia bem ou mal. Continuamos juntos e asseguramos que nossas relações bilaterais merecem atenção com vistas a um possível maior desenvolvimento. O montante de investimentos alemães no Brasil é de aproximadamente 20 bilhões de euros, provavelmente o segundo maior depois da China. Temos em São Paulo e aqui no Sul a maior concentração de indústrias alemãs fora da Europa. No interior da União Europeia, a Alemanha é o maior parceiro comercial do Brasil. Isso significa que as relações econômicas são muito intensas, gerando cerca de 300 mil empregos em empresas germano-brasileiras e esperamos que isso se mantenha apesar da crise econômica. Entre os obstáculos para investir aqui, podemos citar um sistema tributário extremamente complicado, uma legislação trabalhista igualmente complicada e uma certa falta de segurança jurídica. Presumo que mais investimentos possam ser atraídos uma vez que o mercado é amplo e há possibilidade de exportar para a Argentina.

Como Berlim avalia as negociações de um acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul?
Pela primeira vez em 17 anos, há algum otimismo em relação a um acerto. Estamos avançando. Creio que em 2018 ou 2019 podemos chegar a uma conclusão, porque negociações de tratados comerciais são muito complicadas. Estamos nos movendo na direção certa. Houve bons desdobramentos nos últimos 12 meses. Nossa economia está muito estável, mas também sentimos os desafios postos pelas dificuldades em alguns mercados, como Brasil e China. O Brexit também nos impeliu a buscar novos mercados. O Brasil é interessante nesse contexto.

Quais são os maiores obstáculos nessa negociação?
Contratos públicos, agroindústria e barreiras comerciais não-tarifárias. Nesse sentido, quando se fala em obstáculos, isso existe dos dois lados, não apenas do brasileiro. Não sejamos injustos. Na Europa, há preocupações sobre carne e outros produtos nos quais o Brasil é muito competitivo. Nossos produtores têm dificuldades de lidar com isso. Por outro lado, o Brasil é muito restritivo à importação de certos produtos, como queijo, iogurte e outros laticínios. Por isso, é uma jornada difícil dos dois lados. Mas estamos avançando.

O senhor fez referência ao Brexit. Como vê os desdobramentos desse processo?
Eu diria que 90% dos alemães ficaram muito tristes com o Brexit. Ficamos traumatizados ao saber dos resultados do plebiscito no Reino Unido. Queríamos manter o Reino Unido dentro do bloco. Mas essa foi a vontade do povo britânico. Veremos o que acontecerá. Até o momento, o Reino Unido ainda não comunicou formalmente à União Europeia sua saída. Imaginamos que isso acontecerá no início do ano que vem. A partir daí, há um período de dois anos para negociar uma nova relação entre Reino Unido e União Europeia. É difícil prever qual será o desfecho. Gostaríamos de manter o Reino Unido o mais perto possível da União Europeia como parceiro e como mercado. Por outro lado, o Reino Unido não pode esperar um acesso pleno e aberto aos mercados europeus sem permitir mobilidade de trabalhadores da Europa para o território britânico. Ou você aceita todas as liberdades de movimento de bens, pessoas e trabalho, ou não aceita. Se você não aceitar, deve considerar que terá dificuldade para exportar certos serviços financeiros para a União Europeia. Será uma negociação muito difícil. Esperemos que, ao final, o resultado seja positivo para o Reino Unido e para nós.

© Zero Hora

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